domingo, 2 de março de 2008

Uma pitada de tudo

Foto: Beto Figueirôa
Hoje eu tenho o prazer de reproduzir aqui a coluna “Uma pitada de tudo”, da jornalista Aline Feitosa, publicada no suplemento "Domingo" do Diario de Pernambuco. Com um texto leve e cheio de sabor, ela fala sobre uma bela tarde de churrasco, onde apesar do calor e da “cerva” gelada, o vinho tem espaço garantido. O texto também está disponível no delicioso blog de Aline: 1pitadadetudo.blogspot.com.

Para um churrasco heterodoxo

Era domingão de sol. O quintal do meu vizinho recebia no gramado uma imensa piscina de plástico. As 24 garrafas da grade de cerveja mofavam no congelador e a mesa redonda, ao lado da churrasqueira, comportava variedades de carnes. Lingüiças alemãs, picanha, bistecas de porco no limão, asinhas de galinha temperadas no alho e cebolas enroladas em papel alumínio. Estava tudo pronto para ir à brasa. Para acompanhar, farofa de jerimum. Gosto desses dias espontâneos, de farras sem pré-marcação, em que os amigos vão aparecendo e trazendo contribuições deliciosas. Também acredito que são nesses momentos onde se come melhor. Cada um que queria se mostrar mais com suas criações gastronômicas. Se bem que, num churrasco, não há muito o que fazer. Basta alguém no posto de churrasqueiro para a carne sair no ponto certo e, esse alguém, naturalmente, era o anfitrião. Pois bem, meu vizinho é um cara que ama ir a mercados. Herdou o costume do pai. Conhece todos os boxes, comerciantes e sabe exatamente o dia e a hora para ir buscar o melhor produto. Para a nossa tarde de domingo, ele encomendou uma picanha de carne-de-sol. Deixou o corte por duas horas no leite e avisou: "minha gente, essa carne vai ser o pipoco!". Ficamos aguardando, ansiosos. Bebericamos ali, brincamos com a criançada aqui, até que chegou o aviso: "vai sair a carne-de-sol!". Fomos à mesa e, bem na hora em que a picanha começava a ser fatiada, chega o irmão do anfitrião. Digamos que Tavinho, o irmão, é o mais velho da família. Leva o nome do pai e já carrega a fama de ser melhor adepto de mercados do que o próprio genitor. Tem a mesma ou maior paixão por mercados, feiras e cozinha. Na mão, trazia uma cioba inteira, já sem as espinhas centrais. A bichinha estava fresquinha, com os olhos brilhando. Havia acabado de comprar na bancada de Seu Isa, no mercado da Encruzilhada. Foi aí que a piada perdeu a graça, assim como a lingüiça, as asinhas de galinha e a bisteca de porco. Pela primeira vez, vi o peixe ganhar todas as atenções durante um churrasco. Não, o irmão do meu vizinho não é católico a ponto de deixar de comer carne na quaresma. Mas é desses caras que amam surpreender. Não só surpreendeu, como deixou o mano um tanto enciumado. Comemos a picanha de carne-de-sol, que realmente estava deliciosa, mas ficamos todos, umas dez pessoas, aguardando a saída da brasa do peixão imponente. Para completar esse churrasco que contrariou padrões, a mulher de Tavinho, Fabiana, abriu vagarosamente uma garrafa de rosé gelada. Eis um casal de paladar aguçado, diria. O marido prepara o peixe e a mulher escolhe o vinho para harmonizar com a criação do amado. Segundo Fabiana, uma jornalista curiosa sobre vinhos e que, coincidentemente esta semana lançou um blog para trocar idéias sobre a bebida milenar (www.escrivinhos.com), esse rosé "é fantástico na relação custo benefício, é leve, embora tenha boa persistência. Um toque de frutas vermelhas dá o charme", descreve ela, já anunciando um jantar em sua casa.

Peixe heterodoxo (Por Tavinho Pereira da Costa)

Ingredientes

l 1 cioba inteira sem a espinha central
l Duas cebolas pequenas raladas
l 3 dentes de alho amassados
l Sumo de dois limões
l Sal a gosto
l Pimenta-do-reino a gosto

Modo de preparo

Na peixaria, peça para tirarem a espinha central da cioba fresca. Em casa, lave o peixe já tratado e estenda-o aberto sobre um tabuleiro grande, com o couro virado para baixo. Passe o sumo de limão por toda extensão do pescado. Depois tempere com o alho, pimenta do reino e sal a gosto. Por cima, passe a cebola ralada e coloque a cioba, ainda com o couro virado para baixo, na brasa. Deixe assar por cerca de meia hora. Quando o couro estiver bem tostado, vire com bastante cuidado. Ideal é utilizar daquelas grelhas duplas, para não haver perigo de o peixe cair. A essa altura, a cebola ralada já estará bem grudada ao peixe e não derramará. Deixe assar por mais mais meia hora, aproximadamente. Depois sirva

1 comentário

aline feitosa disse...

Ué, Bina! Fatou o final do texto, que é a melhor parte: ...O ragú do Tatá!
cheiro e aguardo o convite para o jantar. hahahahahah!
af