terça-feira, 24 de agosto de 2010

Vinhos do Brasil: Casa Valduga

Quem pensava que acabou, está enganado. Continuo agora a relatar a série de visitas técnicas que fiz no último mês de julho, a convite do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), em vinícolas da Serra Gaúcha.

Na sequencia, estivemos em um dos mais bem estruturados produtores do Brasil e que possui vinhos de qualidade invejáveis: a Casa Valduga, localizada no Vale dos Vinhedos.

O grupo de dez jornalistas que participou do projeto foi recebido por João Valduga, enólogo e um dos proprietários da empresa. Inicialmente, ele nos contou a história da vinícola e de sua família, que tem origem na Itália.

Quando chegaram ao Brasil, no final do século 19, os avós de João Valduga não sabiam nem ler nem escrever. “Nasci em baixo de um pé de parreira, numa época em que não havia nem eletricidade”, disse ele. Porém, os antepassados incentivaram o estudo entre filhos e netos, permitindo que a produção que inicialmente ficava apenas no núcleo familiar tomasse novos rumos. Hoje, João comanda a vinícola com seus dois irmãos: Erielso e Juarez.

A Casa Valduga possui 156 hectares de vinhedos próprios, que produzem de 3 a 4 toneladas de uva, cada um. Além disso, a empresa conta com o fornecimento de seis outros produtores. Em média, são processados 1,5 milhão de quilos de uva por ano.

Dos rótulos produzidos, 50% vão para o estado de São Paulo. Cerca de 2,5% a 3% dos vinhos são exportados, principalmente para a Alemanha, Holanda e República Tcheca, e o restante é distribuído para os outros estados do Brasil.

A vinícola orgulha-se de ter a maior adega para espumantes da América Latina. Com capacidade para abrigar 6 milhões de garrafas, a cave é um verdadeiro complexo, onde o visitante pode fazer a degustação da bebida ou aprender a abrir um espumante usando a técnica da sabrage, na qual utiliza-se um sabre para “degolar” a garrafa. A Valduga ainda foi uma das primeiras vinícolas brasileiras a dominar e desenvolver o método champenoise de vinificação, com segunda fermentação na garrafa.

Os tintos de guarda amadurecem em barris de carvalho franceses e americanos e no final do período passam para a cave apropriada. Já os brancos repousam em tanques de aço inox durante curto período para que mantenham os seus aromas primários e possam ser consumidos ainda jovens. Alguns também passam por madeira.

COMPLEXO - A Casa Valduga construiu o primeiro Complexo Enoturístico do Brasil, a Villa Valduga. O belíssimo local, cercado de montanhas e com vista para os parreirais, conta com pousada e restaurantes. Só no ano passado, a Villa recebeu mais 84 mil visitantes Além de conhecer a vinícola, o turista ainda pode participar de cursos de vinhos.

Em todo o complexo, segundo a enóloga e diretora comercial da Casa Valduga, Juciene Casagrande, foram investidos cerca de 25 milhões de dólares nos últimos dez anos.

Atualmente, a Casa Valduga agrega um grupo formado por dez empresas, onde atuam 248 funcionários. Só nos parreirais, foram investidos nos últimos anos 8 milhões de dólares, onde se utiliza uma viticultura de precisão.

CASA DE MADEIRA - Uma das empresas do grupo é a Casa de Madeira, localizada a 1 quilômetro da vinícola. Fizemos o percurso num charmoso trenzinho puxado a trator, carinhosamente chamado por lá de “tuc-tuc”.

A Casa de Madeira é uma unidade de produção de sucos de uva integral e geléias naturais (artesanais e gourmet), segmento que também vem absorvendo boa parte do consumo. Destaque para a geléias de Cabernet Sauvignon e Malbec, que podem harmonizar com os vinhos e compor diferentes tipos de refeição.

Tivemos o prazer de almoçar no aconchegante restaurante da Casa de Madeira, onde é possível estar em contato com objetos e utensílios utilizados pelos antepassados da família na agricultura e na elaboração dos vinhos.

Aliás, os restaurantes da Casa Valduga guardam em um dos seus restaurantes panelas, colheres, batedeiras manuais e outros equipamentos de cozinha antigos. “Todo imigrante trazia em sua bagagem pelo menos uma panelinha”, observa o pesquisador e gerente de marketing da empresa, Fabiano Olbrisch.

O menu foi elaborado através de um sério trabalho de pesquisa que resgatou o tipo de alimento que os italianos comiam aqui na época da imigração. O resultado é um rico cardápio preparado pelo chef Mauro Michatoski. Na ocasião, desfrutamos de um delicioso menu composto de salada radicci com bacon frito, cordorna ao molho de vinho, nhoque de batata doce e polenta ao molho de codorna. De dar água na boca!

Quanto aos vinhos, confiram a belíssima seleção provada:

Espumante 130 Brut

Este foi degustado dentro da cave da Casa Vaduga e servido pelo próprio João Valduga. Trata-se de um espumante produzido cuidadosamente com as uvas Chardonnay e Pinot Noir de três diferentes safras (2002, 2004 e 2005). Com elas, foram preparados sete diferentes tipos de vinhos-base que estagiaram seis meses em barricas de carvalho francesas e romenas.

O rótulo é uma homenagem aos 130 anos da chegada da família Valduga ao Brasil.

Sua cor é amarelo dourado e apresenta uma linda perlage, de bolhas minúsculas e em ótima quantidade. Os aromas remetem a notas de panificação, devido ao contato com as leveduras, além de frutas secas e papelão.

No paladar é seco, untuoso e com boa cremosidade. Traz frutas, amêndoas e deixa um longo retrogosto. Sua graduação alcoólica é 13%.

Na ocasião, ainda tivemos a oportunidade de participar de sabrage das garrafas.

Classificação: Excelente.

Villa-Lobos Gran Reserva – 2005

Elaborado com a cepa Cabernet Sauvignon, este belo vinho é uma homenagem ao cinquentenário de falecimento do compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos. Também degustamos dentro da vinícola, em um cantinho especial, já preparado com decanters e taças.

De acordo com o gerente de marketing da empresa, Fabiano Olbrisch, parte da verba arrecadada com o uso da marca Villa-Lobos - que tem como detentora a Academia Brasileira de Música - vai para a Associação de Músicos do Rio de Janeiro, que atende crianças e adolescentes.

Apenas 10 mil garrafas foram produzidas. O rótulo é de muito bom gosto e a garrafa vem embalada em um papel de seda, no qual é reproduzida a partitura de uma das Bachianas Brasileiras, composição de Villa Lobos.

Quanto ao vinho, ele apresenta cor violácea muito intensa e límpida. No nariz, traz frutas vermelhas, aromas florais e toque de noz moscada. No paladar é aveludado, revelando baunilha e café. Apresenta ótima acidez, taninos de boa qualidade e largo final frutado e com toques de especiarias.

A bebida passou 12 meses em carvalho francês. Tem 14% de álcool.

Classificação: Excelente

Casa Valduga Gran Reserva Chardonnay – 2009

Este branco, elaborado com a uva Chardonnay, tem cor amarelo ouro bem brilhante e límpida. Os aromas são fantásticos, envolvendo frutas tropicais, como carambola, além de notas de chocolate branco, obtidas com a passagem da bebida por barricas romenas e francesas.

Tem boa presença de boca e perfeita acidez. Mostra novamente o frutado e a baunilha aparece de forma elegante. Vai bem com frango, massas e queijos. A graduação alcoólica é de 14%.

Classificação: Excelente/Excepcional.

Identidade Arinarnoa – 2006

Arinarnoa é uma uva resultante do cruzamento das castas Merlot e Petit Verdot, cultivadas no município de Encruzilhada do Sul, na Serra Gaúcha.

Tem cor violácea brilhante e possui aromas delicados de frutas escuras, cravo e cassis. No paladar, mostra ameixa, café e especiarias. Possui médio corpo e boa persistência. Muito gostoso.

A bebida estagiou seis meses em carvalho e tem 13,9% de álcool.

Classificação: Excelente.

1 comentário

Merece um Click disse...

Fabiana, eu já conhecia o Identidade Arinarnoa 2006 e hoje provei o 2007. Gostei bastante, mas acho que o vinho ainda está jovem. Você já provou essa nova safra?
Abs