sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Os vinhos “sem maquiagem” de Filipa Pato

“Vinhos sem maquiagem”, este é o conceito utilizado pela enóloga portuguesa Filipa Pato. Sua produção, na região da Bairrada, é livre de defensivos agrícolas e elaborada à maneira dos antepassados. Filha do renomado produtor Luiz Pato, aquele que é responsável por “domar” a difícil casta Baga, ela diz que nunca pensou em ser produtora. Mas a vocação falou mais alto e Filipa trocou a engenharia química, sua profissão de origem, pelos vinhedos e pela alquimia dos vinhos.


Quando resolveu entrar nesse mundo, a enóloga, formada em Bordeaux, ouviu do seu pai a seguinte sentença: “Quer fazer vinho? Então vá fazer em outra adega”. Foi quando sua avó lhe ofereceu uma antiga vinícola que pertencia ao seu tio, datada do ano de 1888. Ela aceitou a oferta e comprou novos equipamentos para a estrutura, que segundo ela, embora velha, “era muito bem pensada”. Apesar da negativa inicial do pai, Filipa disse que ele foi um grande incentivador de sua carreira. Talvez aquilo tenha sido fundamental para que ela adquirisse mais tarde o seu estilo próprio.

Toda esta história foi contada a mim e a um pequeno grupo de convidados, durante um impecável jantar realizado esta semana no Recife, no restaurante Ponte Nova, promovido pela distribuidora Veloz, que acaba de se estabelecer na cidade.

Filipa falou de sua relação com a uva Baga, principal casta daquela região, afirmando que a variedade não se adapta a nenhum outro lugar do mundo fora a Bairrada. “Tal como a Pinot Noir, é uma uva muito caprichosa”, explica. Segundo ela, a Baga gosta dos solos calcários do local e precisa de clima frio, com boa exposição solar.

Além de não usar agrotóxicos na vinhas, Filipa procura fazer vinhos sem exagero de álcool e de madeira. “Uso no máximo 20% de madeira nova nos meus vinhos”.

A produção anual é de 90 mil garrafas. Destas, cerca de 80% são destinadas ao mercado internacional, principalmente ao Brasil.

Aos 39 anos, Filipa é casada com o sommelier belga William Wouters, com quem assina os “Vinhos Doidos” - que não chegam ainda por aqui. Em 2011 foi eleita a melhor enóloga do ano pela revista alemã Feinschmeker. É uma pessoa sem frescuras, mas ao mesmo tempo refinada – exatamente como os seus vinhos. “Sou fiel aquilo que sou. Nem eu nem meus vinhos usamos maquiagem”, ironiza.

Confira a avaliação dos vinhos provados na noite:

3B Método Tradicional

Filipa não usa a palavra “espumante” no rótulo. Ela simplesmente utiliza “método tradicional” para designar a bebida, que é justamente elaborada com segunda fermentação em garrafa (método tradicional ou champenoise). As uvas Baga (70%) e Bical (30%) fazem parte da composição deste exemplar da Bairrada (daí o nome 3B). De cor rosa claro, apresenta bolhas de tamanho médio, com boa intensidade. Fresco e elegante, traz notas frutadas de romã e morangos, junto com toques tostados. No paladar é leve, cremoso e persistente. Tem 11,5% de álcool.


Classificação: Muito Bom/Excelente.
Média de preço: R$ 80

FP Bical e Arinto 2013

Branco de cor verde limão feito com as castas Bical e Arinto, posui aroma envolvente de notas minerais e de frutas como lichia, abacaxi, lima e pera. O sabor é amanteigado, com bom corpo e acidez, trazendo também o frutado percebido no nariz. Parte do vinho (20%) fermentou em barris usados de carvalho francês. Esta linha substitui a antiga “Ensaios”. A mudança do nome se dá porque Filipa diz ter criado uma base de conhecimento que a fez entender o melhor do que a região oferece. A graduação alcoólica é de 12,5%.


Classificação: Muito Bom/Excelente.
Média de preço: R$ 65

Nossa Calcário Branco 2013

A escolha do nome deste rótulo foi feita através de dois fatores: o primeiro pelo solo calcário da região. O segundo foi pela observação da própria Filipa sobre a forma como os brasileiros expressam a sua aprovação quando experimentam um bom vinho, dizendo “nossa!”. E este é realmente para soltar um sonoro “nossa!”. Elaborado com a casta Bical, fermentou em barricas de 500 litros com controle de temperatura. De coloração verde limão, envolve notas cítricas, minerais e de frutas secas. Encorpado, mostra boa acidez e integração da discreta madeira. O teor alcoólico é de 13%.


Classificação: Excelente.
Média de preço: R$ 130

FP Baga 2013

Filipa diz que este vinho reinventa a vinificação da Baga. Foi inspirado nos pequenos produtores da Bairrada que fazem vinho ao estilo do francês Beaujolais, com pouca extração dos componentes das cascas da uva. Tem período curto de contato com a madeira: “um ou dois meses”, observa a enóloga. Sua cor é de um rubi de média intensidade e os aromas remetem a frutas frescas, como cereja, além de groselha e alguma mineralidade. Sabor leve, com taninos elegantes e perfeito equilíbrio. Um daqueles vinhos pra tomar sem cansar.


Classificação: Muito Bom.
Média de preço: R$ 65

Nossa Calcário Tinto 2011

Feito exclusivamente com a casta Baga, o vinho amadureceu 18 meses em pipas de carvalho de 500 litros. Aroma exuberante, com uma gama diversificada de sensações, tais como floral, especiarias, fruta vermelha madura, tostado, fumo e café. Paladar estruturado, com taninos que deixam o vinho “redondo”. O sabor é tão diversificado quanto as características do olfato. Final prolongado e agradável. Nesta safra, foram engarrafas apenas 2500 garrafas e 110 magnuns (1,5l). Tem 13% de álcool.


Classificação: Excelente/Excepcional.
Média de preço: R$ 130*

*Distribuídos pela Veloz. No Recife, os vinhos podem ser encontrados no Empório Pescadero: (81) 3268-0020.