quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Época: confira entrevista com o maior leiloeiro de vinhos do mundo

John Kapon, chefe executivo da empresa de leilões Acker Merrall & Condit é um dos nomes mais influentes no mundo do vinho. Na verdade, ele é o maior leiloeiro de vinhos da atualidade. O norte-americano, que somente no ano passado faturou US$ 80 milhões, esteve de passagem no Brasil, onde disse que viera para beber bons vinhos com amigos. Ele foi entrevistado pela revista Época, que fez publicou o seu bate-papo com o empresário.



Confira a reprodução da entrevista:

FLÁVIA YURI OSHIMA - 26/11/2014

ÉPOCA - No Brasil, não temos tradição em leilões de vinho. Por que é mais vantajoso enfrentar uma disputa de preços com outros compradores do que ir diretamente a uma loja?

John Kapon
- Uma das minhas funções é conseguir vinhos tradicionais, alguns bem raros. Há lojas especializadas nesse tipo de vinho. Mas não são comuns. Por isso, o leilão vale a pena. Outro motivo é que leiloamos em lotes, algo que raramente se consegue numa loja.

ÉPOCA - Sua família é dona de uma loja centenária de vinhos em Nova York, que era um pequeno negócio. Em menos de 20 anos, vocês se tornaram uma das maiores casas de leilão de vinho do mundo.  Como cresceram tanto em tão pouco tempo?

Kapon - Justamente porque éramos muito pequenos, criamos uma estratégia para nos aproximar dos produtores de vinho: não cobramos do vendedor. As casas de leilão ganham um percentual do vendedor e um percentual do comprador. Nós só ficamos com a metade, o percentual do comprador. 

ÉPOCA - O que o senhor veio fazer no Brasil?

Kapon - Parte importante do meu trabalho é o relacionamento com os meus clientes. É com essas visitas que me aproximo de outros apreciadores de vinho. Viajo muito. Vou à China oito ou nove vezes ao ano para me encontrar com os apreciadores de vinho de lá. Foi isso que vim fazer aqui:  beber junto com amigos que compram meus vinhos.  Viajo muito pela Europa e Estados Unidos. Esse corpo a corpo com os clientes e com os produtores de vinho é algo que as grandes casas de leilão não fazem. É um diferencial tão ou mais importante quanto a nossa política de taxa zero.

ÉPOCA - O senhor pensa em ter negócios com o Brasil?

Kapon - Seria muito bom poder atuar aqui, mas é preciso que se criem condições para isso. No mercado de vinho, o governo brasileiro segue uma lógica que eu não entendo.  Eles taxam vinhos de produtores tradicionais, como França e Itália, e liberam os do Chile e da Argentina. Fazem isso para proteger os produtores locais. Porém, os vinhos taxados não concorrem com os brasileiros porque é outro tipo de produto, de outra faixa etária, voltado para outro público. Quem concorre com os produtores brasileiros são justamente os liberados, do Chile e da Argentina.

ÉPOCA - O senhor já conseguiu estabelecer sua casa de leilões em algum país que não tivesse tradição na área?

Kapon - Sim! Em Hong Kong foi assim. Hoje, a minha segunda maior receita vem do Oriente.
O governo liberou as importações e passamos a fazer leilões por lá.

ÉPOCA - Qual foi a sua venda de maior valor até hoje?

Kapon - Que eu me recorde agora foi um lote de 50 garrafas vendidas a US$ 800 mil .

ÉPOCA - Qual foi o maior valor já pago por uma só garrafa?

Kapon - Acho que US$ 100 mil.

ÉPOCA - Quem são seus maiores compradores?

Kapon - Os americanos. Representam 40% das minhas vendas.

ÉPOCA - Qual  foi o seu faturamento no último ano?

Kapon - Foi de US$ 80 milhões. Em leilões de vinho somos os maiores, com 26% do mercado global.

ÉPOCA - Hoje as pessoas estão dispostas a pagar mais por vinho ou é o contrário, há muita oferta e eles preferem barganhar?

Kapon - O apreciador de vinho nunca gastou tanto quanto agora. Isso não deve mudar.

ÉPOCA - Por quê?

Kapon - A produção de vinhos tradicionais é limitada.  O número de apreciadores de vinho cresce e a produção, não. A França, que produz 80% dos melhores vinhos do mundo, não tem como dobrar a produção. Consequentemente, o valor do produto aumenta. Quem gosta de vinhos bons terá de gastar cada vez mais para ter acesso a eles.

ÉPOCA - O senhor já disse num congresso que o futuro dos leilões é a internet. Como é a sua operação?

Kapon - Temos uma boa operação que deve crescer. Usamos a internet para dar vazão a vinhos que têm boa qualidade, mas não têm qualidade suficiente para ir para leilão presencial. Economicamente, a internet nos permite fazer leilões de pequenos valores. Já chegamos a vender uma garrafa por US$ 15. Além disso, fazemos a transmissão ao vivo de alguns  grandes leilões e os internautas podem dar seus lances.  Mas só entregamos as compras pela internet nos locais que atuamos de forma presencial.

ÉPOCA - Como se aprende a conhecer vinhos?

Kapon - Bebendo. Beba sempre uma variedade grande, sem ficar embriagado, para notar a diferença entre um e outro.

ÉPOCA -  Qual o segredo para beber sempre sem se embriagar?

Kapon - Comigo o que funciona é beber pouco. Saboreio devagar cada gole, bebo muita água e não fico de estômago vazio. Bebo todos os dias em vários momentos do dia. Sou o maior consumidor de vinho que conheço, e olha que conheço muitos.