Depois dos consumidores ameaçarem o boicote aos vinhos brasileiros através das redes sociais e dos sites e blogs especializados, a vez agora é dos restaurantes tirarem de suas cartas os rótulos nacionais. Tudo isso por conta de um pedido feito ao governo brasileiro pelo Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) e por outras entidades do setor para verificar a necessidade de salvaguarda ao vinho produzido aqui no país.
Se aprovada, a salvaguarda poderá elevar o imposto de importação dos vinhos estrangeiros de 20% para 55% e ainda resultar na restrição quantitativa da entrada desses produtos aqui no país. As medidas só não valeriam para os vinhos da Argentina e do Uruguai, que são parceiros do Mercosul.
Em São Paulo, restaurantes de peso, como o D.O.M., Dalva e Dito e Piselli já não estão mais servido vinhos nacionais. No Rio, o Aprazível, conhecido por valorizar os vinhos nacionais, também cortou os brasileiros da sua carta, além de Roberta Sudbrack, Olympe (Claude Troisgros) e ainda o grupo Fasano.
ABS “CAI EM CIMA”
A Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SP), assim como a ABS-RJ, já se posicionou contra as medidas de salvaguarda. Tanto é que lançou um manifesto convidando os seus associados a assinarem uma petição contrária às restrições de importação dos rótulos estrangeiros.
IBRAVIN SE EXPLICA
O Ibravin alega que o resultado esperado com a implantação da salvaguarda é “garantir a participação da produção brasileira de vinhos finos no mercado, que nos últimos anos cresceu apenas para os produtos importados”. Confira a íntegra de carta da entidade.
MINISTRO DEFENDE MEDIDAS
Na manhã de hoje (03/04), o ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas (PT), em entrevista para Rádio Viva News firmou que o não é verdade que vai aumentar o preço do vinho importado. “Tão dizendo muita bobagem. Necessariamente a medida de salvaguarda não precisa ser aumento na importação”, afirmou ele.
Em relação ao boicote dos restaurantes, o minisro disse que são “dois, três que vão fazer”. Ele criticou Roberta Sudbrack, que foi chef do Palácio do Planalto na época do presidente Fernando Henrique Cardoso. “Ela tem um livro publicado onde mostra os pratos que fez para diversos presidentes de diversos países do mundo da época. O vinho que harmoniza o prato, não tem nenhum nacional. Considero uma vergonha”, emendou Vargas.
OPINIÃO DO BLOG
Por que não voltar esses esforços para tentar a redução dos impostos sobre os vinhos brasileiros? Não canso de falar sobre a visível melhoria na qualidade dos rótulos nacionais e exaltei a dedicação de muitos produtores para alcançar a excelência em seus produtos. Porém, pagando mais da metade do preço final de uma garrafa de vinho nacional em impostos, fica difícil o consumidor optar pelo rótulo verde e amarelo.
O Brasil tem rótulos maravilhosos, mas os vinhos têm suas particularidades. Nunca vou poder tomar, por exemplo, um vinho brasileiro que se compare a um Sauternes (vinho de sobremesa francês), uma vez que não temos um terroir como o daquela região. Entendeu onde quero chegar?
Eu digo NÃO à “censura” do paladar e SIM à diminuição de impostos sobre os vinhos brasileiros!
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terça-feira, 3 de abril de 2012
quarta-feira, 21 de março de 2012
“Se a medida passar, vou propor um boicote aos vinhos nacionais”, diz vice-presidente da ABS-SP em relação a possível salvaguarda aos vinhos brasileiros
Importadores, distribuidores e grande parte do público ligado ao vinho vêm cogitando a ideia de boicote aos rótulos brasileiros caso as medidas estudadas pelo governo de proteção ao vinho nacional sejam aprovadas.
Com essas medidas, os impostos os vinhos importados poderão subir de 27% para 55% ou ainda haver um limite de entrada dos rótulos estrangeiros aqui no país. Ficariam livre das cotas apenas os vinhos argentinos e uruguaios.
“Se a medida passar, vou propor um boicote aos vinhos nacionais”, declarou Mario Telles, vice-presidente da Associação Brasileira de Sommeliers (à esquerda na foto).
Já o empresário Ciro Lilla, proprietário das importadoras Mistral e Vinci (à direita na foto), lançou uma carta aberta onde critica a possibilidade da salvaguarda. Ele enfatiza que o setor de vinhos finos nacionais cresceu cerca de 7% em 2011 — “ou seja, nada menos do que quase o tripo do crescimento do PIB brasileiro!”, observou.
Confira a íntegra da carta de Ciro Lilla:
PROTEÇÃO SEM LIMITES AO VINHO NACIONAL
Caro amigo,
O mundo do vinho no Brasil vive momentos decisivos. Agora é mais do que necessário fazer um alerta a nossos clientes sobre algumas notícias muito preocupantes para os amantes de vinho.
Por incrível que pareça, surgem outra vez notícias a respeito da pressão dos grandes produtores gaúchos sobre o governo para que haja um novo aumento de impostos sobre o vinho importado, como se a gigantesca carga tributária atual não representasse proteção suficiente para o vinho nacional. Fala-se agora em “salvaguardas”, como se a indústria nacional estivesse em perigo, em risco de falência, quando na verdade as notícias enviadas à imprensa reportam um grande crescimento de vendas. Afinal, é preciso definir qual discurso é o verdadeiro: o vinho nacional vai muito bem ou vai muito mal? Os comunicados e números oficiais dizem que vai muito bem, o que invalida o argumento a favor das “salvaguardas”. Além do que, os impostos atuais já são altíssimos, e representam o verdadeiro grande inimigo do consumo de vinhos no Brasil.
Além do aumento de impostos — pediu-se um aumento de 27% para 55% no imposto de importação, o primeiro da longa cadeia de impostos pagos pelo vinho importado — desejam também limitar a importação pelo estabelecimento de cotas para a importação de cada país. Ficariam livre das cotas apenas os vinhos argentinos e uruguaios. Incrível: cotas de importação para proteger ainda mais um setor, o de vinhos finos nacionais, que cresceu cerca de 7% em 2011 — ou seja, nada menos do que quase o tripo do crescimento do PIB brasileiro! Se forem adotadas salvaguardas para um setor que cresceu o tripo do PIB em 2011, que medidas de proteção se poderia esperar então para o restante da economia? Repito porque parece incrível, mas é verdade: pedem salvaguardas para um setor que cresceu cerca de 7% em 2011! É preciso dizer mais alguma coisa?!
Além de mais impostos e das cotas, os mesmos grandes produtores pedem também ainda mais burocracia, como se a gigantesca burocracia que já envolve a importação de vinhos no Brasil também não fosse proteção suficiente para o vinho nacional. Nem bem foi implantado o malfadado selo fiscal e já se pede agora que o rótulo principal do vinho, o rótulo frontal, contenha algumas das informações que hoje já constam dos contra-rótulos obrigatórios. Essa nova medida, se for adotada, vai afetar — como sempre acontece com a burocracia no caso dos vinhos — apenas os vinhos de alta qualidade e pequenos volumes, já que os grandes produtores mundiais não terão nenhuma dificuldade em imprimir rótulos especiais apenas para o mercado brasileiro. Isso, por outro lado, obviamente não será possível para aqueles produtores que embarcam menos de 50 ou 100 garrafas de cada vinho para o nosso país.
Quem, afinal, seria responsável pelo aumento no interesse pelo vinho no Brasil? Certamente são esses pequenos produtores, de tanto charme e história, cuja vinda se tenta dificultar aumentando a burocracia, em uma medida sobretudo pouco inteligente. A importação desses vinhos deveria ser incentivada por todos, inclusive pelos grandes produtores nacionais, porque são eles os grandes veículos de propagação da cultura do vinho no mundo inteiro.
Para completar esse quadro preocupante, agora também são os vinhos orgânicos de pequenos produtores que têm sua posição ameaçada em nosso país. A partir de Janeiro deste ano, os vinhos orgânicos ou biodinâmicos — mesmo os certificados como tal em seus países de origem ou por órgãos certificadores internacionais — não poderão mais ser identificados como tal no mercado brasileiro, a menos que sejam certificados por organismo certificador brasileiro. Expressões como “orgânico”, “ biodinâmico”, “bio”, etc, são proibidas agora nos rótulos, privando o consumidor dessa informação esencial — com exceção dos vinhos certificados por organismo certificador brasileiro. Acontece que o processo de certificação brasileiro é caro e demorado, sendo na prática inacessível aos pequenos produtores do mundo todo. Acreditamos que apenas os grandes produtores mundiais conseguirão se registrar aqui como orgânicos ou biodinâmicos, privando assim o mercado do conhecimento de um número já muito grande e sempre crescente de produtores orgânicos. O vinho é um produto muito particular e específico, em que a maior parte da produção mundial de qualidade está nas mãos de produtores muito pequenos, que não terão recursos para obter a certificação brasileira. Sem dúvida acreditamos que é o caso de adiar a aplicação dessa medida para os vinhos, pelo menos até que sejam assinados acordos de reciprocidade, que permitam o reconhecimento mútuo dos processos de certificação no Brasil e no exterior. Afinal, a quem interessa dificultar a propagação dos vinhos orgânicos a não ser a quem não tenha a intenção de produzir vinhos dessa forma?
Diante desse panorama triste, a pergunta que se impõe é a seguinte: qual o limite para a proteção necessária aos grandes produtores nacionais para que possam competir no mercado? Ou tudo isso seria apenas uma busca por maiores lucros? Algumas das medidas adotadas recentemente, como o malfadado selo fiscal, atingem fortemente os pequenos produtores nacionais também. Vale repetir que os pequenos produtores brasileiros deveriam ter um papel importante no panorama vinícola nacional, uma vez que não existe país com alguma relevância no mundo do vinho onde o mercado seja dominado por apenas alguns grandes produtores. Afinal, todos nos lembramos do período anterior ao início dos anos noventa, quando o mercado pertencia a um pequeno grupo de gigantes da indústria nacional, a maioria multinacionais, e a alguns gigantes da industria vinícola internacional — situação que obrigava o consumidor brasileiro a consumir vinhos caros e medíocres, quando no país nem sequer se sabia o que significava a palavra sommelier.
Estaríamos na iminência de uma volta a esse passado triste para o vinho em nosso país? Será que serão perdidos todos os ganhos dos últimos anos, quando, à custa de tantos esforços, aumentou enormemente a cultura do vinho no Brasil, com o surgimento de muitos milhares de profissionais ligados ao vinho, de inúmeras publicações sobre essa bebida maravilhosa, de tantos novos empregos e de tantas novas possibilidades de crescimento profissional? Seriam os muitos milhares de brasileiros que trabalham nesse novo mercado criado pelo vinho importado, em particular o verdadeiro exército de sommeliers, menos brasileiros do que aqueles que trabalham nas grandes empresas produtoras de vinho nacional? E vale lembrar que de cada 5 garrafas de vinho consumidas no Brasil, entre vinhos finos, espumantes e vinhos comuns (produzidos com uvas de mesa), nada menos do que quase 4 (77.4%) já são de vinhos brasileiros! Os números de vendas e de crescimento do vinho nacional são gritantes, e tornam absurdo se buscar ainda maior proteção!
O consumidor precisa se manifestar, precisa dizer não a esses verdadeiros abusos!
É preciso ter uma agenda positiva para o vinho no Brasil, com todos lutando juntos para um aumento do consumo, para que o vinho obtenha o tratamento tributário de um complemento alimentar — como em diversos países da Europa — e não um tratamento punitivo com ocorre aqui, onde o ICMS pago pelo vinho é o mesmo pago por uma arma de fogo! É preciso também lutar para diminuir a burocracia, que tanto atrapalha os pequenos produtores de vinhos de baixo volume e alta qualidade — aqueles que criam mercado para o “produto vinho”.
É importante que se compreenda o quanto antes que o vinho não é uma commodity, onde o único fator a influenciar a compra é o preço. Vinho é cultura, é diversidade, é terroir, é arte. É como o mercado de livros: o brasileiro lê pouco, assim como bebe pouco vinho. E dificultar a venda de livros de autores estrangeiros não apenas não serviria para aumentar a venda de livros de autores brasileiros, como certamente inibiria ainda mais o hábito da leitura. O mesmo ocorre com os vinhos. É uma ilusão achar que encarecendo o vinho importado o consumidor vai substituí-lo automaticamente pelo vinho nacional. Na verdade o mais provável é que substitua por outro vinho importado mais barato, ou pela cerveja gourmet, ou pelo whisky, por exemplo. O que é preciso é popularizar o consumo do vinho pela diminuição dos preços e da burocracia, tanto para os vinhos nacionais como para os importados. Na verdade eles são aliados, e não inimigos como acreditam aqueles que defendem um protecionismo ainda maior para o vinho brasileiro.
O amante do vinho precisa reagir contra essa situação. Ou teremos todos que aceitar uma volta à situação de 20 anos atrás, com a perda de todo o esforço, todo o trabalho e toda a evolução obtida nesse período.
Cordialmente,
Presidente das importadoras Mistral e Vinci
Com essas medidas, os impostos os vinhos importados poderão subir de 27% para 55% ou ainda haver um limite de entrada dos rótulos estrangeiros aqui no país. Ficariam livre das cotas apenas os vinhos argentinos e uruguaios.
“Se a medida passar, vou propor um boicote aos vinhos nacionais”, declarou Mario Telles, vice-presidente da Associação Brasileira de Sommeliers (à esquerda na foto).
Já o empresário Ciro Lilla, proprietário das importadoras Mistral e Vinci (à direita na foto), lançou uma carta aberta onde critica a possibilidade da salvaguarda. Ele enfatiza que o setor de vinhos finos nacionais cresceu cerca de 7% em 2011 — “ou seja, nada menos do que quase o tripo do crescimento do PIB brasileiro!”, observou.
Confira a íntegra da carta de Ciro Lilla:
PROTEÇÃO SEM LIMITES AO VINHO NACIONAL
Caro amigo,
O mundo do vinho no Brasil vive momentos decisivos. Agora é mais do que necessário fazer um alerta a nossos clientes sobre algumas notícias muito preocupantes para os amantes de vinho.
Por incrível que pareça, surgem outra vez notícias a respeito da pressão dos grandes produtores gaúchos sobre o governo para que haja um novo aumento de impostos sobre o vinho importado, como se a gigantesca carga tributária atual não representasse proteção suficiente para o vinho nacional. Fala-se agora em “salvaguardas”, como se a indústria nacional estivesse em perigo, em risco de falência, quando na verdade as notícias enviadas à imprensa reportam um grande crescimento de vendas. Afinal, é preciso definir qual discurso é o verdadeiro: o vinho nacional vai muito bem ou vai muito mal? Os comunicados e números oficiais dizem que vai muito bem, o que invalida o argumento a favor das “salvaguardas”. Além do que, os impostos atuais já são altíssimos, e representam o verdadeiro grande inimigo do consumo de vinhos no Brasil.
Além do aumento de impostos — pediu-se um aumento de 27% para 55% no imposto de importação, o primeiro da longa cadeia de impostos pagos pelo vinho importado — desejam também limitar a importação pelo estabelecimento de cotas para a importação de cada país. Ficariam livre das cotas apenas os vinhos argentinos e uruguaios. Incrível: cotas de importação para proteger ainda mais um setor, o de vinhos finos nacionais, que cresceu cerca de 7% em 2011 — ou seja, nada menos do que quase o tripo do crescimento do PIB brasileiro! Se forem adotadas salvaguardas para um setor que cresceu o tripo do PIB em 2011, que medidas de proteção se poderia esperar então para o restante da economia? Repito porque parece incrível, mas é verdade: pedem salvaguardas para um setor que cresceu cerca de 7% em 2011! É preciso dizer mais alguma coisa?!
Além de mais impostos e das cotas, os mesmos grandes produtores pedem também ainda mais burocracia, como se a gigantesca burocracia que já envolve a importação de vinhos no Brasil também não fosse proteção suficiente para o vinho nacional. Nem bem foi implantado o malfadado selo fiscal e já se pede agora que o rótulo principal do vinho, o rótulo frontal, contenha algumas das informações que hoje já constam dos contra-rótulos obrigatórios. Essa nova medida, se for adotada, vai afetar — como sempre acontece com a burocracia no caso dos vinhos — apenas os vinhos de alta qualidade e pequenos volumes, já que os grandes produtores mundiais não terão nenhuma dificuldade em imprimir rótulos especiais apenas para o mercado brasileiro. Isso, por outro lado, obviamente não será possível para aqueles produtores que embarcam menos de 50 ou 100 garrafas de cada vinho para o nosso país.
Quem, afinal, seria responsável pelo aumento no interesse pelo vinho no Brasil? Certamente são esses pequenos produtores, de tanto charme e história, cuja vinda se tenta dificultar aumentando a burocracia, em uma medida sobretudo pouco inteligente. A importação desses vinhos deveria ser incentivada por todos, inclusive pelos grandes produtores nacionais, porque são eles os grandes veículos de propagação da cultura do vinho no mundo inteiro.
Para completar esse quadro preocupante, agora também são os vinhos orgânicos de pequenos produtores que têm sua posição ameaçada em nosso país. A partir de Janeiro deste ano, os vinhos orgânicos ou biodinâmicos — mesmo os certificados como tal em seus países de origem ou por órgãos certificadores internacionais — não poderão mais ser identificados como tal no mercado brasileiro, a menos que sejam certificados por organismo certificador brasileiro. Expressões como “orgânico”, “ biodinâmico”, “bio”, etc, são proibidas agora nos rótulos, privando o consumidor dessa informação esencial — com exceção dos vinhos certificados por organismo certificador brasileiro. Acontece que o processo de certificação brasileiro é caro e demorado, sendo na prática inacessível aos pequenos produtores do mundo todo. Acreditamos que apenas os grandes produtores mundiais conseguirão se registrar aqui como orgânicos ou biodinâmicos, privando assim o mercado do conhecimento de um número já muito grande e sempre crescente de produtores orgânicos. O vinho é um produto muito particular e específico, em que a maior parte da produção mundial de qualidade está nas mãos de produtores muito pequenos, que não terão recursos para obter a certificação brasileira. Sem dúvida acreditamos que é o caso de adiar a aplicação dessa medida para os vinhos, pelo menos até que sejam assinados acordos de reciprocidade, que permitam o reconhecimento mútuo dos processos de certificação no Brasil e no exterior. Afinal, a quem interessa dificultar a propagação dos vinhos orgânicos a não ser a quem não tenha a intenção de produzir vinhos dessa forma?
Diante desse panorama triste, a pergunta que se impõe é a seguinte: qual o limite para a proteção necessária aos grandes produtores nacionais para que possam competir no mercado? Ou tudo isso seria apenas uma busca por maiores lucros? Algumas das medidas adotadas recentemente, como o malfadado selo fiscal, atingem fortemente os pequenos produtores nacionais também. Vale repetir que os pequenos produtores brasileiros deveriam ter um papel importante no panorama vinícola nacional, uma vez que não existe país com alguma relevância no mundo do vinho onde o mercado seja dominado por apenas alguns grandes produtores. Afinal, todos nos lembramos do período anterior ao início dos anos noventa, quando o mercado pertencia a um pequeno grupo de gigantes da indústria nacional, a maioria multinacionais, e a alguns gigantes da industria vinícola internacional — situação que obrigava o consumidor brasileiro a consumir vinhos caros e medíocres, quando no país nem sequer se sabia o que significava a palavra sommelier.
Estaríamos na iminência de uma volta a esse passado triste para o vinho em nosso país? Será que serão perdidos todos os ganhos dos últimos anos, quando, à custa de tantos esforços, aumentou enormemente a cultura do vinho no Brasil, com o surgimento de muitos milhares de profissionais ligados ao vinho, de inúmeras publicações sobre essa bebida maravilhosa, de tantos novos empregos e de tantas novas possibilidades de crescimento profissional? Seriam os muitos milhares de brasileiros que trabalham nesse novo mercado criado pelo vinho importado, em particular o verdadeiro exército de sommeliers, menos brasileiros do que aqueles que trabalham nas grandes empresas produtoras de vinho nacional? E vale lembrar que de cada 5 garrafas de vinho consumidas no Brasil, entre vinhos finos, espumantes e vinhos comuns (produzidos com uvas de mesa), nada menos do que quase 4 (77.4%) já são de vinhos brasileiros! Os números de vendas e de crescimento do vinho nacional são gritantes, e tornam absurdo se buscar ainda maior proteção!
O consumidor precisa se manifestar, precisa dizer não a esses verdadeiros abusos!
É preciso ter uma agenda positiva para o vinho no Brasil, com todos lutando juntos para um aumento do consumo, para que o vinho obtenha o tratamento tributário de um complemento alimentar — como em diversos países da Europa — e não um tratamento punitivo com ocorre aqui, onde o ICMS pago pelo vinho é o mesmo pago por uma arma de fogo! É preciso também lutar para diminuir a burocracia, que tanto atrapalha os pequenos produtores de vinhos de baixo volume e alta qualidade — aqueles que criam mercado para o “produto vinho”.
É importante que se compreenda o quanto antes que o vinho não é uma commodity, onde o único fator a influenciar a compra é o preço. Vinho é cultura, é diversidade, é terroir, é arte. É como o mercado de livros: o brasileiro lê pouco, assim como bebe pouco vinho. E dificultar a venda de livros de autores estrangeiros não apenas não serviria para aumentar a venda de livros de autores brasileiros, como certamente inibiria ainda mais o hábito da leitura. O mesmo ocorre com os vinhos. É uma ilusão achar que encarecendo o vinho importado o consumidor vai substituí-lo automaticamente pelo vinho nacional. Na verdade o mais provável é que substitua por outro vinho importado mais barato, ou pela cerveja gourmet, ou pelo whisky, por exemplo. O que é preciso é popularizar o consumo do vinho pela diminuição dos preços e da burocracia, tanto para os vinhos nacionais como para os importados. Na verdade eles são aliados, e não inimigos como acreditam aqueles que defendem um protecionismo ainda maior para o vinho brasileiro.
O amante do vinho precisa reagir contra essa situação. Ou teremos todos que aceitar uma volta à situação de 20 anos atrás, com a perda de todo o esforço, todo o trabalho e toda a evolução obtida nesse período.
Cordialmente,
Ciro de Campos Lilla
Presidente das importadoras Mistral e Vinci
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sábado, 19 de junho de 2010
Mas que rolha é essa?
Esta é a minha coluna do mês de junho da revista Mon Quartier. Confiram:
A primeira vez que abri um vinho e me deparei com uma rolha sintética fiquei meio decepcionada. Logo me veio à cabeça que aquele vinho não poderia ser de boa qualidade.
Isso já faz bastante tempo e, se não me engano, a garrafa era de um Valpolicella, tipo de vinho italiano.
Com o passar do tempo, ficou mais comum encontrar esse tipo de rolha nos vinhos. E elas não estão mais presentes só naqueles rótulos de linhas básicas. Em alguns vinhos um pouco mais caros já podemos ver esse tipo de vedação. E não para por aí. A maior parte dos já respeitados vinhos da Austrália e Nova Zelândia é vedada com tampas metálicas de rosca, também conhecidas como “screw cap”. Alguns produtores de países tradicionais, como Portugal, já adotaram essas versões modernas para tampar seus vinhos.
Com tudo isso, você pode estar se perguntando: e as rolhas tradicionais, vão acabar? Para mim, a resposta é não. Mas antes de explicar, vamos conhecer um pouquinho mais sobre elas.
A cortiça, material da maioria das rolhas, é extraída da casca de uma árvore chamada Sobreiro. Após esse processo, a planta passa cerca de dez anos para se reconstituir completamente. O cultivo do sobreiro está cada vez mais restrito e hoje é dominado por Portugal. Por esses e outros motivos, a rolha de cortiça se tornou uma das matérias-primas mais caras na produção do vinho. A unidade pode chegar a custar até dois Euros.
Além do seu charme, a rolha de cortiça proporciona ao vinho a microoxigenação, que é a troca de ar na medida ideal com o ambiente externo. Se o vinho receber uma quantidade maior de oxigênio, isso pode arruiná-lo.
Por outro lado, os fabricantes de rolhas sintéticas e tampas de rosca vêm desenvolvendo testes para provarem que elas funcionam muito bem, preservando as características da bebida.
Especialistas dizem que um vinho tinto aguenta até cinco anos com tampa de rosca. Já ficou provado também que as rolhas sintéticas conservam muito bem os vinhos por curtos a médios períodos de tempo. Pesquisas vêm sendo feitas sobre a evolução de vinhos de guarda vedados com o material sintético, mas só poderemos ter o resultado daqui a alguns anos.
Os fabricantes de rolhas sintéticas e tampas de rosca ainda têm outro trunfo: seus produtos protegem o vinho da contaminação do vinho pelo tricloranisole (TCA), fungo que se prolifera na cortiça e transmite odores e sabor desagradáveis ao vinho (embora a contaminação também possa ocorrer na cantina).
O crítico Robert Parker diz que em 2015, poucas garrafas usarão rolhas de cortiça. Mas e a microoxigenação, tão importante para o vinho e somente promovida por esse tipo de rolha? E o glamour da abertura da garrafa, impedido pelas tampas de rosca?
Sou a favor dos dois novos métodos para preservar os brancos e os tintos mais jovens, do dia-a-dia. Porém, acho que pelo menos os grandes vinhos e aqueles que se propõem a ser de melhor qualidade devem procurar manter a tradição e preservar a boa e velha cortiça. E os grandes produtores com certeza pensam assim.
Em todo caso, guardarei algumas garrafas para que eu possa garantir que no futuro os meus netos saibam qual é a sensação de abrir uma garrafa com saca-rolhas e ter o prazer de sentir o inigualável aroma que só as rolhas tradicionais proporcionam.
Um brinde!
A primeira vez que abri um vinho e me deparei com uma rolha sintética fiquei meio decepcionada. Logo me veio à cabeça que aquele vinho não poderia ser de boa qualidade. Isso já faz bastante tempo e, se não me engano, a garrafa era de um Valpolicella, tipo de vinho italiano.
Com o passar do tempo, ficou mais comum encontrar esse tipo de rolha nos vinhos. E elas não estão mais presentes só naqueles rótulos de linhas básicas. Em alguns vinhos um pouco mais caros já podemos ver esse tipo de vedação. E não para por aí. A maior parte dos já respeitados vinhos da Austrália e Nova Zelândia é vedada com tampas metálicas de rosca, também conhecidas como “screw cap”. Alguns produtores de países tradicionais, como Portugal, já adotaram essas versões modernas para tampar seus vinhos.
Com tudo isso, você pode estar se perguntando: e as rolhas tradicionais, vão acabar? Para mim, a resposta é não. Mas antes de explicar, vamos conhecer um pouquinho mais sobre elas.
A cortiça, material da maioria das rolhas, é extraída da casca de uma árvore chamada Sobreiro. Após esse processo, a planta passa cerca de dez anos para se reconstituir completamente. O cultivo do sobreiro está cada vez mais restrito e hoje é dominado por Portugal. Por esses e outros motivos, a rolha de cortiça se tornou uma das matérias-primas mais caras na produção do vinho. A unidade pode chegar a custar até dois Euros.
Além do seu charme, a rolha de cortiça proporciona ao vinho a microoxigenação, que é a troca de ar na medida ideal com o ambiente externo. Se o vinho receber uma quantidade maior de oxigênio, isso pode arruiná-lo.
Por outro lado, os fabricantes de rolhas sintéticas e tampas de rosca vêm desenvolvendo testes para provarem que elas funcionam muito bem, preservando as características da bebida.
Especialistas dizem que um vinho tinto aguenta até cinco anos com tampa de rosca. Já ficou provado também que as rolhas sintéticas conservam muito bem os vinhos por curtos a médios períodos de tempo. Pesquisas vêm sendo feitas sobre a evolução de vinhos de guarda vedados com o material sintético, mas só poderemos ter o resultado daqui a alguns anos.
Os fabricantes de rolhas sintéticas e tampas de rosca ainda têm outro trunfo: seus produtos protegem o vinho da contaminação do vinho pelo tricloranisole (TCA), fungo que se prolifera na cortiça e transmite odores e sabor desagradáveis ao vinho (embora a contaminação também possa ocorrer na cantina).
O crítico Robert Parker diz que em 2015, poucas garrafas usarão rolhas de cortiça. Mas e a microoxigenação, tão importante para o vinho e somente promovida por esse tipo de rolha? E o glamour da abertura da garrafa, impedido pelas tampas de rosca?
Sou a favor dos dois novos métodos para preservar os brancos e os tintos mais jovens, do dia-a-dia. Porém, acho que pelo menos os grandes vinhos e aqueles que se propõem a ser de melhor qualidade devem procurar manter a tradição e preservar a boa e velha cortiça. E os grandes produtores com certeza pensam assim.
Em todo caso, guardarei algumas garrafas para que eu possa garantir que no futuro os meus netos saibam qual é a sensação de abrir uma garrafa com saca-rolhas e ter o prazer de sentir o inigualável aroma que só as rolhas tradicionais proporcionam.
Um brinde!
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terça-feira, 6 de maio de 2008
Por que Rio Sol?
Por que o Rio Sol foi escolhido o melhor tinto do Brasil pelo júri da Expovinis 2008? Esse foi o questionamento da semana no meio enófilo nacional. Preconceito por ser um rótulo nordestino? Talvez. A verdade é que o pernambucano marcou presença no evento e ficou empatado com o gaúcho Marson Gran Reserva. Não vou defender o vinho nordestino por ser pernambucana, apenas darei a minha opinião como jornalista que vem se esforçando em estudar e conhecer vinhos. Por isso, tomei o Rio Sol no último final de semana para poder falar sobre ele. Também já tive a oportunidade de degustar o Marson Gran Reserva, que é realmente um vinho excepcional – embora tenha experimentado as safras de 1999 e 2002, diferentes da eleita na Expovinis, que foi a de 2004.Voltando ao Rio Sol, trata-se de um vinho elaborado com as castas Cabernet Sauvignon e Shiraz. A safra escolhida na Expovinis foi a de 2006. Para acabar com o suspense vou logo adiantando: me surpreendeu, mas não classificaria como ótimo. É um vinho bem feito e com bom custo-benefício. Na taça, apresentou cor rubi com reflexos acastanhados. Os aromas vão de frutas negras e vermelhas a toques de violeta e especiarias. É um vinho tânico, causando uma certa secura principalmente no final. Tem médio corpo e o paladar também remete a frutas vermelhas e especiarias. Vale a pena experimentar, pois seu preço ainda é convidativo. Comprei por R$ 21,83, no Pão de Açúcar, no Recife. No site da Expand custa 18,90. Já o Marson Gran Reserva (safra 2002) custa R$ 76, no Club du Vin, também no Recife.
O Rio Sol é produzido pela Vitivinícola Santa Maria, no município de Lagoa Grande. Desde 2003, a empresa é parceira da Dão Sul, umas das mais importantes vinícolas de Portugal. Localizada a oito graus de latitude ao sul do Equador, possui uma área de 1.500 hectares de terra irrigada, dos quais 400 hectares são reservados para o cultivo de uvas de primeira qualidade, destinadas à fabricação do Rio Sol e do rótulo Adega do Vale. O local oferece condições diferenciadas de vitivinicultura por ter sol durante 300 dias do ano e estar localizada no Vale do Rio São Francisco. Esses fatores contribuem para incidência de duas safras por ano, gerando o "ciclo vegetativo contínuo", onde num mesmo dia pode se fazer a poda, ver a floração da videira, provar os primeiros bagos maduros e fazer a vindima – algo inimaginável na Europa.
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terça-feira, 8 de abril de 2008
Vinho versus pimenta
Semana passada tive em um restaurante mexicano aqui no Recife, chamado Frida. Lá, eles têm uma carta de vinhos bem diversificada. Na ocasião, uma amiga perguntou se vinho combina com comida apimentada. Eu particularmente, não gosto da combinação. Seja comida apimentada ou com alho. Mas, tentando, às vezes se dá um jeito de harmonizar. Confiram o que diz o sommelier Manoel Beato sobre o assunto:
“É conceito universal: em qualquer culinária não há vinho que se harmonize com pratos muito picantes. Com pouca pimenta, prefira vinhos aromáticos, de acidez boa e baixo teor alcoólico, como alguns Torrontés argentinos, Sauvigon Blanc da Nova Zelândia e da África do Sul”.
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quinta-feira, 27 de março de 2008
Vinho no supermercado?
Sempre tenho dado aqui no blog sugestões de supermercados onde o leitor pode encontrar alguns vinhos comentados. Porém, tem gente que costuma torcer o nariz para a venda da bebida nesses estabelecimentos. Então, vamos trocar idéias!
É verdade que em grande parte dos supermercados o armazenamento não é ideal. As garrafas ficam na posição vertical, a iluminação normalmente é muito intensa, a temperatura nem sempre é adequada e o transporte do produto até a prateleira é uma incógnita. Esses fatores certamente influiriam na minha compra se eu fosse adquirir um vinho mais caro, de safras mais antigas ou para guarda. Porém, se é para o vinho do dia-a-dia - aquele mais acessível - não vejo nenhum problema em colocá-lo no carrinho e tomá-lo no jantarzinho à noite. É bem divertido chegar no final das compras e poder garimpar um novo rótulo para provar.
"Mas não existe vinho bom em supermercado”, é o que muita gente fala. O sommelier Manoel Beato, profissional que eu admiro muito, não pensa desta maneira “Há 20 anos, podia ser assim, mas hoje há bons e até mesmo excelentes rótulos nos supermercados”, diz ele. Alguns supermercados já contam com adegas que deixam o vinho repousando na horizontal e evitam luzes diretas sobre os produtos. Ponto para eles. Ainda assim, se o vinho que você comprou junto com sua feira não estava bom (relativo à conservação... hehe), leve para trocar. É seu direito.
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quinta-feira, 13 de março de 2008
Vinho deve ter nota?
“Como pode um vinho ter 90 pontos e outro 91? Isso sempre me soou esdrúxulo...”. A frase é do compositor e crítico de vinhos Ed Motta. Com seu jeito convicto e irônico, ele levanta uma polêmica que mexe diretamente na metodologia utilizada pela revista Wine Spectator (a qual ele chama de Disney Spectator) e do todo-poderoso crítico de vinhos Robert Parker.
Hoje é comum encontrar publicações, inclusive de especialistas brasileiros, que utilizam sistemas de avaliação baseados em notas ou quantidade de estrelas. Não condeno esses críticos. Porém, assim como o Ed, acho que classificar o prazer como o de beber um vinho com esse pragmatismo é limitado demais. Não vou afirmar que não consulto os mais bem cotados nessas publicações, pois algo de bom normalmente eles têm. Mas a minha avaliação sobre um determinado vinho, assim como a sua, podem ser bem diferentes. O importante é o que a gente gosta. Por isso, sempre dou aqui a minha opinião, mas sempre respeitando os comentários daqueles que provaram o mesmo vinho e tiveram outra impressão.
E você, o que acha de tudo isso?
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