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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A desafiadora Pinot Noir

Acompanhe a seguir a 4ª prova da avaliação Sabores de Baco, promovida este mês pelo jornal Folha de Pernambuco.

Mais uma vez, tive o prazer de participar da degustação e, assim como os outros participantes, me surpreendi com o resultado, que teve um vinho brasileiro como o melhor classificado.

Confira a matéria publicada pelo jornal:

“Degustação vai na contramão do estigma da casta européia”

Quem assistiu ao delicioso longa "Sideways" (EUA, 2004), estrelado pelo ator baixote Paul Giamatti, deve lembrar que a grande paixão enológica do personagem Miles Raymond eram os vinhos feitos a partir da uva pinot noir. No roteiro, o escritor decadente e depressivo defende com vigor a alma dessa casta de origem francesa. O testemunho de Raymond surge como um protesto romanceado, é verdade, contra os comentários ácidos (feitos na vida real, fora das telas), muitas vezes negativos, a respeito da performance dos vinhos feitos com ela.

Essa má fama carregada pela pinot noir é verídica por conta da dificuldade que se tem de cultivar com sucesso em outras partes do mundo fora das fronteiras da França - mais especificamente das regiões de Champanhe e Borgonha. Ela integra o corte de castas do espumante mais celebrado de todos os tempos e é a uva tinta mais típica borgonhesa. É na Borgonha de onde saem as mais emblemáticas garrafas feitas com a uva.

Há quem diga, inclusive, que, por hipótese alguma, devia-se tentar reproduzir a cultivação fora do país europeu. Que é tempo perdido. Que a pinot é tão temperamental que nunca renderá bons frutos líquidos, ainda mais em terras de clima quente. Mas o espírito desafiador do homem não cessa com as dificuldades impostas pelas características dessa cepa - que pede clima frio, fornece aromas e oferece notas gustativas completamente díspares dependendo de onde foi produzida e, por isso, a maior dificuldade de definir sua tipicidade. Enfim, um desafio e tanto para os nossos avaliadores na 4ª edição do projeto Sabores de Baco.

O encontro aconteceu no último dia 14, no Hotel Atlante Plaza, e contou com a participação de alguns dos principais nomes em enologia e enofilia na Capital pernambucana. O grupo, coordenado por Murilo Guimarães (colunista deste caderno), degustou às cegas oito rótulos elaborados com a fruta originários de vários países. O resultado do encontro foi surpreendente.

Nosso agradecimento, sempre, ao grupo de avaliadores que coloca seus conhecimentos a favor dos leitores da Folha de Pernambuco. São eles: Amanda Loyo - sommelière pela Court of Master Sommeliers na Califórnia; Fabiana Gonçalves - sommelière pela Associação Brasileira de Sommeliers e proprietária do blog Escrivinhos (www.escrivi­nhos.com); José Roberto Dantas - sommelier pela Associação Brasileira de Sommelier de São Paulo e professor de enologia no curso de Gastronomia da Faculdade Maurício de Nassau; Jorge Pinho - fundador da Sociedade dos Amigos do Vinho em Pernambuco (Sbav-PE), Fred Guimarães - palestrante de enologia e ex-presidente da Sbav-PE; Hermilo Borba Neto - fundador da Sbav-PE e atual diretor de degustação da entidade e Murilo Guimarães - colunista de vinho do caderno Sabores e coordenador das degustações de Sabores de Baco. Com eles, a palavra.

Sabores de Baco 4ª prova: vinhos TINTOS da Pinot Noir

Por: Murilo Guimarães

Os leitores assíduos desta coluna e deste caderno já conhecem a nossa confraria SABORES DE BACO. Que se reúne regularmente – tá bem, nem tão regularmente, mas se reúne – para degustar vinhos de regiões ou temas pré-selecionados pelo já apresentado grupo de degustadores. Desta feita a seleção recaiu sobre vinhos tintos da casta de uva Pinot Noir (PN). Você está me achando redundante ao falar de tintos desta uva? Pois saiba que não só deles vive a PN, presente em muitos espumantes, sobretudo no rei deles, o Champanhe. Nunca sendo demais lembrar que qualquer uva de casca tinta pode ser usada para fazer vinhos brancos ou espumantes. Para tanto, bastando retirar rapidamente as cascas do mosto gerado pela leve prensagem das uvas.

Mas vamos à nossa degustação. Você deve se perguntar o que nos levou a escolher este tema. A Pinot Noir, presente em várias regiões vinícolas do mundo, é uma uva do tipo “mu¬lher bonita e misteriosa”. Atraente, intrigante, difícil... E passa cada rasteira! Segundo o Luiz Gastão Bolonhez, editor de vinhos da revista Adega, “...é uma das uvas mais complexas do mundo do vinho. Manuseá-la nas vinhas exige muito trabalho e, para prová-la, é necessário uma compreensão diferente da que temos normalmente sobre outros vinhos tintos”. Viu como minha comparação foi na mosca? Conforme Hugh Johnson, ela é “a glória da Borgonha, com aroma, sabor e textura inigualáveis em outro lugar”. Taí uma das motivações desta nossa degustação: provar e comparar vinhos desta uva, elaborados em diferentes regiões do mundo. Como sempre fazemos na SABORES DE BACO, inteiramente às cegas, para não haver “influência do rótulo”.

Deixando a escolha dos vinhos ao livre critério do produtor ou do proprietário da loja participante. A eles, por sinal, mais uma vez a gratidão e os parabéns, não só nosso, mas de todos que apreciam vinhos, pela disposição e o despojamento em participar desta prova.

Luiz Bolonhez falou em complexa? Complexa é a situação deste grupo de degustadores depois que vocês lerem o resultado abaixo. Perguntarão: como pode uma uva tão emblemática receber notas tão baixas, na média? Querem uma resposta honesta? Sei não. Parodiando Chicó, “eu só sei que foi assim”. A bem da verdade, após a degustação, quando desvendamos os rótulos das garrafas, até nós ficamos surpresos com a pontuação de alguns vinhos (bem uniforme, entre nós sete), particularmente os dois representantes da Bourgogne. Onde este vinho é inigualável! O que pode ensejar a ideia de que nós não tivemos a “compreensão diferente” para analisar a PN. Pode até ser. Mas no grupo, entre outros, tem um reconhecido amante desta uva, frequentador recorrente da Bourgogne, que acompanhou os colegas nas notas. E justiça se faça, até em detalhes, como a análise da cor e do aspecto dos vinhos – sempre mais claros e brilhantes que os vinhos de Cabernet, Merlot, Shiraz, Malbec e outras – nós procuramos seguir os padrões da Pinot Noir.

Para os degustadores, ficou a clara impressão de que a garrafa do vinho Bourgogne Couvent des Jacobins, conhecido de alguns do grupo, estava “morta”. Você não acredita que vinho tenha vida? Ora, ora, claro que tem. E por vezes apenas uma garrafa de um único lote pode vir com esse defeito. De fato, esta garrafa, na correta observação de dois degustadores, estava sem personalidade e tipicidade. Incompatível com o vinho. Outra possível explicação é a safra. O ano de 2007 não é dos mais cotados na Bourgogne, o que também explicaria a segunda surpresa da noite, a pouca pontuação do Château de Dracy.

O evento aconteceu nas dependências do Hotel Atlante, onde depois fomos contemplados com a ótima comida do restaurante Mirage. Que como já disse, em artigo anterior, está com uma boa carta de vinhos, de preços excelentes. Josiel nos auxiliou na degustação com muita gentileza e competência. A todos do hotel que se envolveram, nossa gratidão.

Bem, amigos, vamos ao resultado final.

1º - Dadivas Pinot Noir (Brasil)
2º - Leyda Reserva Pinot Noir (Chile)
3º - Amayna Pinot Noir (Chile)
4º - Alamos Seleccion Pinot Noir (Argentina)
5º - Las Perdices Reserva Pinot Noir (Argentina)
6º - Château de Dracy (França)
7º - Bourgogne Couvent des Jacobins (França)
8º - Aurora Pinot Noir (Brasil)

Na tabela no fim da matéria (clique para ampliar), você encontra as regiões/países produtores, os nomes dos vinhos e as safras. Depois, a faixa de preço, a média de pontos (máximo de 100) e a classificação dos vinhos. Adiante, a classificação das lojas fornecedoras, com a pontuação dividida pelo número de garrafas enviadas. Desta vez, como de outras, o Club du Vin se fez representar por três garrafas, daí a relevância da média.

O grande vencedor entre os vinhos de Pinot Noir foi o Dádivas, da vinícola Lídio Carraro (hoje também denominada SulBrasil), produzido no Vale dos Vinhedos, Rio Grande do Sul. Pois é. O Brasil fazendo bonito. Mas, por favor, não diz isso ao povo do PT, não. Senão eles assumem a autoria e vão dizer que nunca antes nesse País... Em segundo lugar ficou o Leyda Reserva, do Chile e em terceiro, o Amayna, também chileno. Desta forma, configurando uma devastadora vitória sul americana sobre os vinhos da Bourgogne. Lembrei do famoso Julgamento de Paris. Não sabe o que é isso? Então, não está lendo minha coluna, pois já me referi a esta degustação mais de uma vez. Pesquise na internet. É interessante.

Quanto ao vinho bem menos pontuado, o Aurora Pinot Noir, também achamos que a garrafa poderia estar sofrida. Além da safra (2010) muito jovem. Do grupo, os que já o haviam bebido em outra ocasião, disseram que ele é melhor do que se apresentou naquela noite.

Por fim, uma análise muito importante: a relação qualidade-preço (Q-P). A primeira vista, devido ao seu baixo custo – único abaixo de R$ 40 – o Aurora teria a melhor Q-P. Mas considerando que ele chegou a ser desqualificado por um dos degustadores, não me sinto autorizado a colocá-lo nesse lugar. Quem sabe testando outra garrafa... Feita essa ressalva, as duas melhores relações Q-P foram dos mesmos dois primeiros lugares no aspecto gustativo – Dádivas e Leyda.

O objetivo principal destas degustações é orientar o consumidor na procura dos vinhos. Mas nada substitui seu próprio gosto. Testem, tanto os vinhos, como a opinião dos degustadores. Ficando eu na esperança de vocês serem mais clementes conosco, do que nós fomos com os Pinot Noir! Tim, tim. Brinde à vida!

sábado, 31 de julho de 2010

Sabores de Baco: degustação de sul-africanos

Mais uma vez, tive o prazer de participar do projeto Sabores de Baco, da Folha de Pernambuco. A prova deste mês foi de vinhos sul-africanos e aconteceu no restaurante Taipoca, do chef Duca Lapenda, no Pina.

Confira aqui a matéria publicada neste sábado (31/07/10) e o resultado da degustação:

Que vinho é esse?

No apagar das luzes de julho, eis que apresentamos o resultado do 3º Sabores de Baco. Que, não fugindo à regra da maioria das ações marketeiras mundo afora, faz uma homenagem, meio a contragosto, é verdade, por conta da eliminação da Seleção Canarinho, ao país que sediou a Copa do Mundo 2010. Nossos confrades, pois, reuniram-se em torno de vinhos sul-africanos, tintos, sete rótulos ao todo, e suas impressões você confere nas próximas páginas. Um brinde!

A nossa escolha pelos vinhos da África do Sul para a avaliação às cegas na 3ª edição do nosso Sabores de Baco teve motivação óbvia: a Copa do Mundo 2010 que acabou de rolar naquele imenso, e belo, país de gente alegre, apesar do recente passado político marcado pelo cruel apartheid. Nossa modesta homenagem àquele lugar exuberante foi estimulada também pela notória expressividade do setor vinícola sul-africano - que tem arrancado do público, e da crítica especializada principalmente, comentários positivos a respeito da crescente qualidade dos seus rótulos. Hoje conhecida por produzir vinhos de personalidade.

O que muitos não sabem é que o vinho é feito na África do Sul há décadas, muitas aliás, mesmo que de forma pouco competitiva. Apenas na década de 60, o país deu o “pulo do gato”, como se diz, com o reposicionamento do setor que passou a investir em tecnologia e a acompanhar as técnicas vitivinícolas adotadas pelas principais regiões produtoras do mundo. O negócio de vinho por lá é tão antigo que desde 1973 existe uma denominação de origem própria - a Wine of Origin Scheme - que certifica vinhos feitos em determinadas regiões.

Para o mundo, os rótulos sul-africanos ficaram mais visíveis a partir do fim do regime de apartheid, em 1991, quando enfim houve abertura comercial e os produtores locais puderam se articular com os seus pares em outros países, mais experientes ou no mesmo patamar de desenvolvimento, intercambiando informações e, claro, know how. Foi aí que as cepas brancas, a maioria até então, começaram a dividir território com as tintas mais nobres. Ao passo que também adotou o lema “menos é mais”, reduzindo o volume de produção e, dessa forma, obtendo vinhos de melhor qualidade. E é a esse esforçado trabalho de vitivinicultura a que dedicamos a edição de hoje.

Avaliadores

A degustação dos sul-africanos ocorreu no último dia 13, no restaurante Tapioca, em Boa Viagem, e dessa vez contou com a participação de apenas quatro membros da nossa comissão avaliadora: Murilo Guimarães - médico e colunista da Folha de Pernambuco; Fabiana Gonçalves - sommeliére e blogueira (foto); Jorge Pinho - médico e fundador da Sbav-PE e José Roberto Dantas - sommelier profissional. O resultado desse encontro regado a bons goles e comentários a respeito dessa próspera região produtora você confere nas próximas páginas, que ainda trazem notícias do mercado enológico local.

Sabores de Baco 3ª prova: vinhos TINTOS sul-africanos

Por: Murilo Guimarães

Claro que a Copa do Mundo de Futebol estava por trás da escolha do tema desta nova prova-degustação. Só que a gente sonhava em publicá-la com a taça na mão. Em agosto de 2006, após nosso fracasso na Copa da Alemanha, escrevi sobre a esperança do hexa em 2010. “E felizmente foi-se Parreira. Ave Dunga! Boa sorte”, dizia eu naquele artigo. Mas não deu não. De novo. Bem, a despeito disso, nosso grupo de degustadores teve muito prazer em provar os vinhos da África do Sul, que nos enviaram o Club du Vin, a Grand Cru e a Lacomex.

Das três provas, esta teve a disputa mais apertada, a mais nivelada. Por cima, é bom que se diga. Isso não surpreendeu, visto que a África do Sul, apesar de considerada nova no mundo vinícola, tem grande tradição. E muita respeitabilidade no mercado internacional. Além de exercer preços bem razoáveis.

A decisão de restringir a degustação aos tintos foi tomada em face do histórico das duas provas anteriores: vinhos brancos (Chardonnay e Sauvignon Blanc) e espumantes sul-americanos. Estava na hora dos tintos. Só isso. Nunca por desmerecimento dos brancos daquele país, que são muito bons e até mais clássicos que os tintos.

A África do Sul produz vinhos em várias regiões, mas a qualidade é encontrada no sudoeste, particularmente no entorno da cidade do Cabo. Que já foi da tormenta e hoje é dos bons vinhos. Na cabeceira, dois grandes distritos: Stellenbosch e Paarl. As castas tintas mais usadas são a Cabernet Sauvignon e a Pinotage. Esta última, fruto do cruzamento da Pinot Noir com a Hermitage (na França, mais conhecida como Cinsaut). Mas outras uvas ganham terreno por ali, sobretudo Merlot, Pinot Noir e Shiraz.

Desta vez o restaurante que sediou o evento foi o ótimo Tapioca, onde fomos recebidos com fidalguia por Duca Lapenda e sua equipe. Depois da degustação formal dos vinhos - como sempre inteiramente às cegas - fomos premiados com outra degustação: pratos do cardápio da casa, onde destaco o saboroso arroz de cabidela. Tudo sem reparo. Quer dizer... Desta feita o grupo de degustadores foi reduzido a quatro enófilos, devido a outros compromissos que afastaram três colegas. Mas se o número foi menor, o mesmo não pode se dizer da qualidade de quem lá estava (veja o corpo de jurados, desconsiderando este que vos escreve). Egoísmos à parte, até sobrou mais vinho para nós quatro! Brincadeira.

Bem, amigos, vamos ao resultado

Na tabela abaixo você encontra os distritos produtores, os nomes dos vinhos e as safras. Depois a faixa de preço, a média de pontos (máximo de 100) e a classificação dos vinhos. Adiante a classificação das lojas fornecedoras, com a pontuação dividida pelo número de garrafas enviadas. Item outra vez liderado pelo Club du Vin.

O vinho vencedor foi o Danie de Wet Pinotage Bio 2009, da vinícola Wetshof, 12 décimos acima do segundo lugar, o Simonsig Cabernet Sauvignon. Em terceiro, também poucos décimos abaixo, o Wolftrap, produzido pela vinícola Boekenhoutskloof (conseguiu pronunciar?). Este último, ao contrário dos dois primeiros - varietais das duas mais importantes castas tintas da África do Sul - é um corte de uvas oriundas do Rhône (França): Shiraz, Mourvèdre, Viognier e Cinsaut. Essa é uma nova faceta dos produtores daquele país.

Como já disse, até o sexto lugar a diferença de pontos foi bem pequena, expressando uma boa qualidade média dos vinhos testados.

Mas essas degustações sempre trazem surpresas. O vinho menos pontuado, um corte com predomínio da uva Merlot, é produzido sob orientação de um dos mais cultuados enólogos do mundo, o bordalês Michel Rolland. No mundo do vinho costumamos dizer que “vinho é medido garrafa a garrafa”. Terá havido algum problema específico com aquela que testamos? Qualquer dia desses vou tirar essa dúvida.

Nenhuma casta de uva predominou absoluta. O mesmo podendo se dizer dos distritos produtores.

Por fim, uma análise que sempre fazemos: a relação qualidade-preço. Como quase todos os vinhos estavam na faixa de R$ 41a R$ 80 e a pontuação foi próxima, não houve grandes diferenças. Porém, nesse item venceu também o Danie de Wet, seguido pelo Glen Carlou Cabernet Sauvignon e pelo Simonsig Pinotage.

Façam seus testes, leitores e vejam se concordam com nossos degustadores. Se possível, lá mesmo, no país das vuvuzelas. Sem elas, claro. Pois daí vai dar para ouvir seu tim, tim. Brinde à vida!

CLIQUE NA TABELA PARA AMPLIÁ-LA:

segunda-feira, 28 de junho de 2010

“Sabores de Baco” avalia espumantes sul-americanos

O Sabores de Baco, projeto do jornal Folha de Pernambuco, trouxe no último sábado (26) para as páginas do caderno “Sabores” uma avaliação de espumantes sul-americanos. Tive o prazer de integrar o time de avaliadores a convite da editora Vanessa Lins e do colunista de vinhos Murilo Guimarães.

Confira os detalhes da prova a seguir:

Sabores de Baco
Com vocês, o espumante sul-americano

Cá estamos de novo. E com um prazer imenso em dar continuidade ao projeto Sabores de Baco, escrevendo, neste sábado, um capítulo bem especial sobre espumantes. Especificamente, os brasileiros e os da vizinhança sul-americana. Nossos seis confrades se reuniram no dia 24 de maio passado, no restaurante Jalan Jalan, para beber, analisar e compartilhar informações a respeito dos nove rótulos em questão. A prova, feita Pás cegas, foi difícil, surpreendeu.

A escolha desse tipo de bebida como tema do encontro se deu naturalmente, considerando que o mercado consumidor de espumantes, no Brasil, vem crescendo de forma acelerada, em Pernambuco especialmente. Parece que o calor escaldante, o sol de rachar e uma bela costa formam a equação perfeita para o pernambucano sorver uma bela taça efervescente de... espumante! O interesse por aqui tem sido tamanho que tem até produtor do Sul do Brasil mirando no gosto local e destinando grandes remessas para Pernambuco.

Sucesso crescente, então, por que não testar a performance de alguns rótulos? Você, caro leitor, pode questionar a opção pelos espumantes jovens do Novo Mundo. Por que não falamos dos nobilíssimos champagnes, dos potentosos cavas espanhóis ou os românticos proseccos italianos? Novamente, a justificativa nos remete a um mapeamento de mercado. Ainda recente no universo enológico, o brasileiro está naquele momento de optar por vinhos de bom custo-benefício. E ninguém entende melhor desse riscado como chilenos e argentinos, responsáveis pelas maiores produções da América do Sul, ao passo que o Brasil tem desenvolvido cada ano mais o seu potencial para uma bebida fresca e frutada no Sul e no Nordeste do país. Optamos, portanto, em valorizar produtos locais e de países próximos. Coube aos avaliadores convidados a tarefa de traçar um panorama qualitativo das amostras disponíveis. O resultado você confere nas próximas páginas, que, ainda traz dicas de utensílios para espumante. Um brinde aquecido por muitas borbulhas.

Os avaliadores:

Murilo Guimarães
Coordenador das degustações Sabores de Baco, experiente enófilo, assina quinzenalmente a coluna Bacoe Cia, no caderno Sabores.

Fabiana Gonçalves
Novata na turma da degustação da Folha. É a única jornalista pernambucana a falar apenas de vinhos. Assina o blog Escrivinhos (www.escrivinhos.com), é formada sommelier pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SP). Também assina colunas enológicas nas revistas Mon Quartier e Plural.

José Roberto Dantas
Formado sommelier pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SP), está no nível 3 da Wine and Spirit Education Trust, escola preparatória para a maior titulação mundial em enologia – o Master of Wine.

Hermilo Borba Neto
Fundador da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho (Sbav-PE) e atual diretor de degustação da entidade.

Jorge Pinho
Também fundador da Sbav-PE e ex-presidente da entidade, é tido como referência quando o assunto é vinho.

Fred Guimarães
Ministra palestras sobre enologia e é ex-presidente da Sbav-PE.

Baco e Cia
Por: Murilo Guimarães


Sabores de Baco: 2ª Prova - Aos leitores que já conhecem este projeto, sugiro que pulem esta introdução, que se destina aqueles "marinheiros de primeira viagem". Sabores de Baco foi a denominação que demos a esta confraria. Juntamos os nomes do caderno e da minha coluna e o resultado agradou. Afinal, o objetivo da confraria é avaliar os sabores dos vinhos, tão bem representados pela figura bonachona do rei Baco.

O que temos feito já existe em outros lugares do mundo e mesmo no sul e sudeste do Brasil, mas nosso clima é diferente e talvez os sabores dos vinhos também assim nos pareçam. E acima de tudo, o que o mercado local oferece aos consumidores pode diferir de outros estados.

Esse foi o primeiro critério destas provas. Fazemos contato com várias lojas e representantes recifenses, explanamos o projeto e pedimos que forneçam garrafas de vinho de seus estoques. A seleção, portanto, é deles. Quatro lojas e ou representantes atenderam ao convite (vejam tabela). Aos seus proprietários, em nome dos que fazem e dos leitores deste caderno, mais uma vez agradeço e aplaudo a disposição de participar.

Item da maior importância é a escolha do corpo de jurados. Fomos à procura de conhecedores e amantes do vinho, não ligados ao comércio vinífero, por motivos óbvios. Montamos uma belíssima equipe. O que pode ser atestado nas páginas que me antecedem.

Elaboramos uma ficha gustativa, na qual notas são atribuídas à cor, ao aspecto, a itens do aroma e do paladar de cada vinho, com nota final máxima=100 pontos. A degustação é feita inteiramente às cegas; os jurados sequer sabem que vinhos serão provados, portanto não há influência de um pré-julgamento.

A 2ª prova-degustação

Escolhemos o tema espumante. E o delimitamos à América do Sul. Por várias razões. Maior disponibilidade no mercado, custo em média mais baixo que os europeus e a boa fama que esses produtos vem angariando pelo mundo afora. Sobretudo os brasileiros.

Aliás, em um primeiro momento, pensamos em limitar esta prova aos espumantes nacionais. Depois achamos que seria interessante ampliar a disputa, até para testarmos a qualidade do que produzimos em comparação aos vizinhos chilenos e argentinos. Por outro lado, honestamente, seria covardia incluir os champanhes nesta contenda. Portanto, espumantes sul-americanos foi a proposta final.

Este evento se deu no fim de maio, no restaurante Jalan Jalan, que abriu suas portas exclusivamente para esta prova. Ótima escolha do local. Nós, jurados, ficamos bem à vontade para avaliar as nove garrafas enviadas. Taças corretas, temperatura adequada dos espumantes e um serviço de nível, que se encarregou de definir a sequência aleatória das garrafas. Sequência só revelada aos jurados após todo julgamento. Vamos ao resultado.

Resultado da prova

A tabela mostra país, nome dos vinhos, safra e preços, divididos por faixas: até R$ 40, de R$ 41 a R$ 80 e de R$ 81 a R$ 120. A concorrência fica mais democrática. A seguir vem a média de pontos de cada vinho (soma dos jurados, dividido, no caso, por seis) e a classificação geral. Na próxima coluna essa classificação é ajustada para as faixas de preço. Depois o nome da loja ou representante que forneceu os vinhos, com suas devidas pontuações e classificações. Abaixo, a relação de qualidade-preço (Q-P) de cada espumante e a média de pontos para os brancos (6) e os rosés (3).

O vinho campeão (medalha de Ouro) foi o Reserva da Serra, da Lídio Carraro, seguido de perto pelo Chandon Brut Excellence Reserve (medalha de Prata), ambos espumantes brancos, e pelo Pizzato Brut Rosé (medalha de Bronze). Observe o restante da sequência na tabela, que não sofre grande mudança quando ajustada às faixas de preço. O que me reporta à relação qualidade-preço, também vencida pelo Reserva da Serra. Logo após, o Federico de Alvear e mais abaixo, o Chandon Brut Rosé. Mas eu destacaria também o Pizzato Brut Rosé - pouco mais caro que os anteriores - e o Salton Evidence. Este espumante merece uma ressalva. A garrafa degustada estava, infelizmente, "sofrida". A cor atestava isso e não havia borbulhas, prejudicando seu julgamento. Apesar disso, ficou para todos os jurados a impressão de estarmos diante de um vinho de qualidade. Bem, garrafas defeituosas são acidentes de percurso que ocorrem. Pena! Outra garrafa que pode não ter feito jus ao espumante foi a Tarapacá Champenoise Brut. A única safrada (elaborada com vinhos de uma única safra, em lugar da usual mistura), era de 2004, prazo de guarda muito longo para um espumante.

O Club du Vin forneceu o espumante medalha de Ouro, mas a Lacomex teve a melhor média de pontos.

Os brasileiros ficaram com os três primeiros lugares. O vizinho melhor qualificado foi o argentino Federico de Alvear, no quarto lugar. Três a um para Dunga, contra Maradona! Os rosés tiveram uma média de pontos levemente superior, impactados pela baixa pontuação de dois brancos. Mas os dois primeiros lugares foram brancos.

Dois pontos foram destacados pelos jurados. O critério de cor ideal se baseia no champanhe, de tom mais dourado. Os espumantes avaliados eram mais claros, tal qual os Proseccos. Será que devíamos ter critérios de avaliação distintos para espumantes (não champanhe)? O outro ponto é a doçura e o necessário balanceio com a acidez. Todas as garrafas testadas eram brut, onde o teor residual de açúcar deve ser baixo. Não foi o caso de muitas delas. Duas, por sinal, exatamente as menos pontuadas, foram consideradas incorretamente classificadas como brut. Poderiam ser demi-sec.

Seria isso uma adaptação ao gosto brasileiro, considerando que as mulheres por aqui, mais chegadas aos doces, são as grandes consumidoras de espumante? Qual sua opinião? Não tem? Pois está aí o resultado para lhe guiar. Teste e me diga. E faça tim, tim. Brinde à vida!

As melhores bolhas

Nove espumantes de sotaque sul-americano. Seis experientes avaliadores. A análise das borbulhas experimentadas você pode conferir na página anterior na coluna de Murilo Guimarães, e os que tiveram melhor performance, na opinião da comissão julgadora, cinco ao todo, levam nossas medalhas de classificação. Foram eles:

1º lugar:

Reserva da Serra Brut

Produtor: Lídio Carraro - Serra Gaúcha (Brasil)
Corte: Chardonnay e Pinot Noir





2º lugar:

Chandon Brut Excellence Reserve

Produtor: Moët & Chandon - Garibaldi (Brasil)
Corte: Chardonnay e Pinot Noir





3º lugar:

Pizzato Brut Rosé

Produtor: Pizzato - Serra Gaúcha (Brasil)
Corte: Merlot e Egiodola